Volume 8 - Número 1

 

EDITORIAL

O papel da escola no desporto infanto-juvenil. Que importância? 

 Sempre que falamos em desporto no período infanto-juvenil, surgem nas linhas do nosso pensamento os clubes desportivos, descurando muitas vezes o primeiro palco de intervenção capaz de oferecer ou potenciar aquilo a que poderemos chamar de “literacia motora”. Falamos claramente da escola, onde o palco pode assumir um carácter informal sustentado numa disputa de bola apressada por um curto hiato temporal entre aulas e dividida numa cena em que a bola rola pelo meio de hábeis movimentos de estabilização e locomoção capazes de transpor a manipulação das cordas que circuitam velozmente embaladas pelos suspiros de raparigas ou rapazes enamorados, ou que ombreia no talento e na disputa de um palmo de campo com o grupo que se bate por fazer um último cesto antes de tocar e com isso ganhar o jogo de Basquetebol. No decurso da cena que vertiginosamente se 7 aproxima do fim, já que a aula de matemática está a segundos de se iniciar, os intentos e sonhos das crianças e jovens do nosso país fluem pelos recreios escolares de forma inocente ou intencional e efusiva ou tímida, consoante seja a idade do protagonista, pois aos 15 anos, já não posso correr a berrar o nome do meu avançado preferido após ter marcado um golo, sob a pena de ser excomungado do grupo de amigos por parecer um miúdo de 10 anos. Na realidade, um pedaço da escola pode ser concebida por estes momentos de informalidade mas também se constitui por momentos de carácter formal carregados de significado e de competências que profissionalmente os professores tentam transmitir aos seus alunos. No que concerne ao desporto propriamente dito, a escola assume um papel de destaque. Poderá o leitor pensar mas como pode a escola potenciar o desporto? Estará o escritor a confundir educação física, atividade física e desporto? Na realidade não. Apesar da aula de Educação Física em conformidade com a sua versatilidade holística assumir momentos de desporto, baseando-nos para isso na concepção semântica da palavra desporto que envolve por exemplo regras e competição, ao falarmos em desporto estaremos a referir-nos ao Desporto Escolar.

O Desporto Escolar assume especial importância na medida em que aloca um conjunto diferenciado de vivências e competências no plano físico, psicológico e social conseguindo dar resposta e suprir as necessidades das crianças fruto do conjunto diferenciado de variáveis que se impõem no seu dia a dia. Ao inserir-se na desejável tríade escola-familía-desporto, por ser parte integrante da entidade macro que é a escola, assume um lugar privilegiado na mesma, tendo por isso a possibilidade de se adaptar às necessidades dos seus alunos de acordo com as suas necessidades e sendo parte integrante da sua formação na primeira pessoa.

No que respeita à relação que se estabelece com os alunos, o professor/ treinador é parte integrante do meio ambiente dos seus alunos/atletas não partilhando por isso apenas o momento do treino mas também os mesmos espaços em situações diferenciadas que percorrem toda a escala da informalidade até esbarrar no limite da formalidade, participa nas mesmas atividades escolares, contribui para a organização e rumo que a escola segue para propiciar o seu sucesso escolar, participa no seu dia a dia festejando os seus sucessos e amparando-o nos insucessos e é detentor de um conhecimento profundo das suas necessidades.

No que diz respeito ao processo de treino o professor/treinador pode articular de forma direta com a escola as estruturas e recursos necessários para potenciar a performance desportiva dos seus alunos podendo-lhes também disponibilizar uma oferta desportiva diversificada com base nos grupos de equipa de Desporto Escolar existentes.

Contudo, infelizmente, são ainda muitos os encarregados de educação que não atribuem a devida importância ao Desporto Escolar. Estabelecem ilações erróneas consubstanciadas na premissa que o desporto de forma séria apenas é praticado nos clubes desportivos, sendo a competição no desporto escolar apenas uma brincadeira e descuram as potencialidades e resposta que o mesmo pode dar aos seus educandos. A respeito da seriedade competitiva do Desporto Escolar de referir que neste âmbito, no nosso país, as competições assumem planos diferenciadas indo de encontros entre escolas a competições de âmbito nacional, internacional e mundial, claro está que estas últimas apenas para os casos de excelência.

Não nos esqueçamos a vida dos alunos é a escola e o desporto escolar está no centro dela!

Termino esta reflexão fazendo uma alusão ao início deste texto. Suportei-me dos clubes desportivos para fazer a ponte para o papel minimalista atribuído às escolas. Não pretendo com isto relegar a importância que os clubes assumem no período infanto-juvenil e no seu contributo para o plano desportivo nacional. A vida tem-me proporcionado a felicidade de esta- belecer fortes laços de amizade com treinadores de excelência. Conheço vários casos de clubes que se constituem como um exemplo a seguir, cu- riosamente alguns deles aproximando-se muito do modelo que se preconiza para o desporto escolar, ou seja, um modelo de formação multidisciplinar, baseado na participação ativa da vida escolar dos seus atletas e no contacto e envolvência com a sua família. Assumo também a consciência de que a dada altura do processo de formação de um jovem, a escola se não preconizar um fluidez competitiva como a dos clubes, não conseguirá dar resposta à necessidade dos seus alunos/atletas, se os mesmos pretenderem competir de uma forma mais séria e formal.

Espero que estas linhas se constituam como um contributo para a reflexão do nosso leitor e termino as mesmas acompanhado de uma dúvida que será a base das minhas reflexões nos próximos dias. Que articulação e sinergias deverão existir entre os clubes desportivos e o Desporto Escolar? 

 

Armando Filipe Mariano e Costa
(Diretor da REDAF)

 

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